domingo, 21 de março de 2010

BÁRBARA HELIODORA

Este texto da Bárbara Heliodora foi publicado no Jornal do Brasil (Rio) em 1961. Repetindo: 1961!!!!!!

Foi o Dib Carneiro Neto o grande arqueológo que encontrou essa matéria e postou lá no seu blog. Gentilmente, ele nos cedeu esse "achado" e colocamos aqui também, pra que todos reflitam. Afinal, como ele mesmo diz: quase meio século e muitos dos erros das produções continuam até hoje...

“Deve causar não só preocupação, como mesmo alarme, a todos os que se interessam pelo desenvolvimento do teatro e pela formação cultural de nossa infância, o fato de que os grupos de teatro infantil proliferam na ração direta de sua falta de qualidade e critério.

Dois erros básicos, muito embora totalmente opostos, são os mais comuns nesse gênero de atividade, e ambos se originam no desconhecimento da natureza do teatro como arte independente e legítima, bem como de suas características essenciais. Abandonando o caminho do teatro, os que erram descambam para dois campos opostos: o da suposta pedagogia e o da exacerbação emocional gratuita, ambos esquecidos de que o teatro é uma experiência artística, estética, uma experiência independente, autônoma, ligada ao que é definível especificamente como uma ação dramática.

Que o teatro educa, não há dúvida, ou, melhor dizendo, pode educar, mas deve educar pelos seus próprios meios, pelo aprimoramento de conceitos estéticos, pela ampliação da experiência de conhecimento humano, e nunca pela lição de moral impingida, soletrada e empurrada goela abaixo a qualquer preço.

Há pessoas que passam a vida a tirar citações de Shakespeare e encontrar aplicação para as mesmas, fora de contexto, em todos os assuntos, desde hábitos de higiene até as boas maneiras à mesa ou na sociedade, mas por certo a culpa não é de Shakespeare, que tratou de temas em termos dramáticos que expressaram determinadas ideias, mas que por certo não tinham a intenção de ensinar ninguém a usar o guardanapo. Dramatizações de determinados acontecimentos como instrumento didático momentâneo é um outro assunto completamente à parte.

Do outro lado, está alguma coisa de ainda muito mais comprometedora, o grupo que junta meia dúzia de frases feitas ou ideias apropriadas a contos de fadas ou similares, e a partir disso apostam corrida em volta da plateia do palco, fazem concursos de potência vocal com os espectadores e, de modo geral, deixam-no num tal estado de superstição gratuita – sendo mesmo nefasta – que deve criar inúmeros problemas para os incautos, pois que pagaram seu dinheiro na busca de uma atividade dominical para a prole.

Que foi que aconteceu com o teatro infantil pra que chegasse ao ponto de loucura a que chega agora? Não é difícil encontrar a explicação: não há por aqui nada o que se fazer com as crianças nos fins de semana, a não ser ir à praia (quando não chove) ou a cinema (quando há algum filme de censura livre que não seja um das monstruosidades que deviam se proibidas por um juizado estético de menores), e admitamos que não há pergunta mais angustiante do que aquela: “O que é que eu vou fazer?”, ilustrada pelo arregalamento de dois olhinhos sequiosos de saber o que é que este estranho mundo tem para oferecer a uma curiosidade insaciável.

O resto do mecanismo é simples: um grupo começou a fazer teatro infantil bom, íntegro, e fez sucesso. Com a descoberta daquela fonte inesgotável de bilheteria, não houve quem não visse o golpe que era fazer teatro infantil e toca a fazê-lo, de qualquer maneira, para aproveitar o filão. Pior do que isto, inventou-se que escrever para teatro infantil é fácil, acessível a quem não consegue escrever para teatro sem limite de idade, e multiplicaram-se os textos que variam do estarrecedor ao inenarrável.”

2 comentários:

Bernardo disse...

Olá

Ví abaixo asa chamadas para o "Meu menino Quintana e Cântaro Quintana.
Obrigado por seguir meu Blog Quintana Eterno.
Um abraço e sucesso
Bernardo

Prosa dos Ventos disse...

Muito obrigada! É um prazer seguir seu blog também!